A Black Strat rendeu 20% ao ano. Não tente fazer isso em casa

A guitarra de David Gilmour foi vendida por US$ 3,975 milhões em 2019 e por US$ 14,56 milhões neste ano. Com a coleção de Johnny Marr triplicando a estimativa na semana passada, guitarras de rock viraram ativos-troféu.

Christie’s Auction Room, a coloured print by Rowlandson and Pugin, 1808.
Christie’s Auction Room, a coloured print by Rowlandson and Pugin, 1808.

Em junho de 2019, David Gilmour vendeu a Black Strat, a Fender Stratocaster que tocou em The Dark Side of the Moon, num leilão beneficente em Nova York. O comprador foi Jim Irsay, dono do Indianapolis Colts, que pagou US$ 3,975 milhões, na época um recorde para qualquer guitarra.

Irsay morreu em 2025. Neste ano a Christie’s vendeu sua coleção, e a Black Strat saiu por US$ 14,56 milhões.

É um retorno de cerca de 3,7 vezes em sete anos, ou aproximadamente 20% ao ano composto, num ativo que não paga dividendos e precisa ser guardado na umidade certa. Quem vende guitarras como investimento vai citar esse número por anos. Repeti-lo é outra história.

Uma temporada recorde

Os leilões de Irsay, realizados de março a 1º de julho, arrecadaram cerca de US$ 105 milhões com 406 lotes, o maior total já alcançado por uma coleção de memorabilia. Os preços mais altos parecem uma história da cultura pop do século 20: o datiloscrito em rolo de On the Road, de Jack Kerouac, por US$ 12,1 milhões; a guitarra “Tiger” de Jerry Garcia, por US$ 11,6 milhões; a Fender Mustang que Kurt Cobain tocou no clipe de “Smells Like Teen Spirit”, por US$ 6,9 milhões; e a Martin do Unplugged de Eric Clapton, por US$ 4,1 milhões.

Na outra ponta do catálogo, um par de dragonas de uniforme soviético foi vendido por US$ 254.

Na semana passada a temporada ganhou um epílogo. Em 17 de setembro, a Christie’s vendeu em Londres Marr’s Guitars: The Johnny Marr Collection, instrumentos que pertenceram ao ex-guitarrista dos Smiths e foram tocados por ele. Licitantes de 34 países levaram o total a £ 3.649.280, mais que o triplo da estimativa.

A Rickenbacker 330 de 1982 de Marr, em preto Jetglo, a guitarra mais associada à banda, tinha estimativa de £ 60 mil a £ 80 mil e foi vendida por £ 358.400. O Martin D-28 de 1971 em que ele compôs boa parte do repertório dos Smiths estava estimado em £ 30 mil a £ 50 mil e saiu por £ 128 mil.

A renda de 31 lotes foi para a Guide Dogs for the Blind Association e a National Autistic Society.

Fazendo as contas

Os 20% são antes dos custos. As casas de leilão cobram dos compradores um prêmio sobre o preço de martelo e dos vendedores uma comissão; seguro e armazenamento especializado somam mais. Ninguém mantém um índice das guitarras tocadas em palco que foram vendidas por menos do que os donos pagaram, embora haja muitas.

O valor da Black Strat também tem muito pouco a ver com a guitarra em si. Uma Stratocaster comum da mesma idade sai por uma pequena fração do preço. Os colecionadores pagam pela procedência, a prova documentada de que esse objeto esteve no palco e no estúdio com Gilmour por meio século, e só um punhado de instrumentos no mundo tem uma história assim.

A maioria já está em mãos privadas.

Quem vende

As grandes vendas de guitarras dos últimos anos vieram sobretudo de músicos se desfazendo de instrumentos, muitas vezes para caridade, ou de espólios de colecionadores. Gilmour vendeu para financiar a ClientEarth, entidade de direito ambiental. A coleção de Irsay foi vendida após sua morte, e Marr doou a renda de parte do leilão.

Vendas assim já vêm com publicidade embutida, e os licitantes sabem que os instrumentos talvez não voltem ao mercado por décadas.

A demanda por trás é bem real. Quem cresceu ouvindo Pink Floyd, Grateful Dead e Smiths controla hoje muito dinheiro, e alguns preferem pendurar na parede a guitarra de um disco que amam a mais um quadro.

Irsay, que certa vez disse ter recusado US$ 1 bilhão pela coleção, chegou cedo. Os compradores deste ano pagaram preços que supõem que todo mundo já o alcançou.

Fontes

O retorno anual foi calculado a partir dos dois preços de venda publicados, ao longo de sete anos, antes dos custos. Imagem de capa: Christie’s Auction Room by Thomas Rowlandson and Augustus Charles Pugin, published by Rudolph Ackermann, 1808, Metropolitan Museum of Art via Wikimedia Commons, CC0. Recortada.

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